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Reconhecimento: Por que é tão difícil chegar lá?
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terça-feira, 20 junho 2017
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Reconhecimento: Por que é tão difícil chegar lá?

 

Quantos amigos DJs você tem? Ou quantos você conhece? E quem nunca abriu um link com dicas de ouro sobre como se tornar um DJ reconhecido? Pode atirar a primeira pedra. Este é o cenário. Entretanto, mesmo com um vasto leque de conteúdos e profissionais, não é difícil (aliás, até parece parte da carreira), ver DJs frustrados no mercado. Na mesma rapidez que em entram em cena, muitos saem. Seria essa decisão um traço de inadequação pessoal ou estamos falando apenas em um mercado de alta volatilidade, com uma balança desigual entre oferta e procura?

Pensou rapidamente na resposta? Então, antes de concluí-la, que tal ler o que alguns profissionais da área têm a dizer?

Conversamos com 3 perfis que certamente possuem experiências que valem a pena o compartilhamento, até para entendermos que esta profissão não é um universo de glória como muitos imaginam. Para cada um dos nosso convidados, fizemos o mesmo questionamento:

Hoje o mercado oferece mais possibilidades. Provavelmente, quando você começou a discotecar/produzir, os acessos eram reduzidos. Desta forma, com maiores facilidades (inclusive tecnológicas), porque muitos profissionais, ou aqueles que aspiram ser, não conseguem "chegar lá''? Porque há tanta frustração neste ramo da indústria do entretenimento?

A primeira resposta vem da nossa querida Eli Iwasa.

DJ/Produtora e sócia do Club 88, Eli é uma das figuras mais conhecidas e emblemáticas da música eletrônica brasileira. Cheia de carisma, simplicidade e com uma pesquisa musical impecável, ela conquista o público por onde passa. Com a agenda sempre cheia, a DJ nos deu sua visão sobre o mercado.

Eli Iwasa: "Ser bem sucedido em qualquer área exige uma baita dose de dedicação, e no mercado de entretenimento e artístico, você depende de muitos outros fatores para ter sucesso do que apenas talento ou esforço. Carisma, entrega - e sim, acredito que você depende de um pouco de sorte para que as coisas aconteçam.

O advento de novas tecnologias tornou o acesso de novos artistas e profissionais ao mercado mais democrático, mas o tornou mais competitivo também - ele não consegue absorver o número crescente de produtores e DJs que surgem a cada dia. Precisa amar muito tudo isso para não desistir no meio do caminho como muita gente. Eu não diria que há muita frustração nesta área, mas definitivamente, existe uma concorrência muito grande, e como artista, você tem que descobrir seu nicho, trabalhar duro, pesquisar, estudar muito, e criar uma boa rede de contatos."

O segundo entrevistado é um dos mais conhecidos e respeitados instrutores quando falamos em técnicas de discotecagem. Do analógico ao digital, ele domina praticamente tudo. Ronaldo Holanda é DJ e responsável pela ProDeejay, escola especializada em profissionalizar todos os que sonham em trabalhar na área.

Ronaldo Holanda: "Por um lado, as coisas realmente eram mais difíceis antigamente. Por exemplo, os acessos às tracks, aos equipamentos e às informação eram mais restritos. Porém, quem corria atrás conseguia seu lugar ao sol. O que acontece hoje? Falta empenho! Tem gente acreditando que o básico resolve. Mesmo com o acesso à informação facilitado, vejo muitos DJs desinformados. Só conhecem as tracks ''de agora'' e não se dedicam a aprender sobre as influências que foram responsáveis pelo atual cenário. Os equipamentos também são mais fáceis de manusear e, justamente por isso, os novos DJs não se aprofundam em dominar as ferramentas.  Além disso, atualmente não basta tocar bem. Ter um trabalho de marketing é essencial. Hoje o conjunto é muito mais abrangente. Então, o DJ que toca bem, mas não sabe se vender, não está no mercado.

Fora tudo isso, ainda vejo como pior o seguinte: DJs "das antigas" que ficam indignados por verem os novos se destacando mais que eles. Muitos ficam revoltados por não considerarem estes novatos bons tecnicamente. Mas falta autocrítica. Este deveriam se perguntar: O que esse cara está fazendo de correto e que eu posso aprender? O problema é que o ego não deixa. Logo, muitos não vão para frente.

E por último, um bom DJ nunca deve esquecer que em primeiro lugar está a pista. O promoter irá buscar o DJ que vende.
Em resumo, para conseguir espaço, o DJ tem que se transformar em um bom produto. Deve ser um verdadeiro conhecedor do que faz e saber o que tocar, para quem e em que momento. E, claro, não adianta tocar bem se você não souber se portar no mercado."

A terceira percepção vem de João Komka. DJ/Produtor, dono da 5uinto Records e sócio da festa 5uinto, que há 10 anos tem transformado Brasília em um dos principais pontos de desembarque de artistas renomados.

Komka: "Olha, eu comecei a discotecar, produzir músicas e festas há exatos 15 anos. Nesta época o mercado já estava consolidado, mas ainda sim o acesso à informação era mais reduzido. Para ser DJ, você tinha que comprar discos. Tinha que saber tocar num toca-disco. Estávamos quase chegando na era da discotecagem digital, mas ainda peguei o final dos tempos analógicos. Para produzir, você precisava correr atrás, pegar dicas com amigos mais experientes, se virar no inglês e pesquisar na internet, e, principalmente, persistir. Não havia Youtube ou tutorias de fácil acesso, então, basicamente o acesso à informação era bem mais restrito. Também em relação à produção de festas, não havia redes sociais. Para divulgar uma festa tinha que ser no boca a boca, na base do flyer, fóruns ou sites na Internet. Enfim! Acredito que hoje o acesso à informação seja gigantesco, existam muitos mais DJs e produtores e a concorrência seja bem mais acirrada. Mas desde aquela época eu acredito que para um artista ter destaque, ele tem que ter um diferencial, personalidade. Mostrar algo que vá além das tendências momentâneas, pois existe uma "manada" de DJs que seguem essas tendências, e para ter destaque não basta ser somente mais um destes."

Depois de ler os depoimentos, o que você conclui? Pessoalmente, acredito que cada caminho é único e não há uma receitinha mágica para o sucesso. O mercado do entretenimento não é esta terra prometida que muitos pregam. Se consolidar nele vai muito além de apenas talento, por exemplo. Muitas vezes nos pegamos perdidos neste fluxo que está em constante mudança e esta sensação de insegurança é absolutamente normal. Se optarmos por seguir em frente, que ótimo! Mas se concluirmos que chegamos ao nosso limite, também não há desmérito nisso. A lição que fica, ao meu ver, é que como em qualquer profissão, é necessário dedicação, foco e mente aberta. Normalmente enxergamos o quintal do vizinho sempre verdinho, mas não conhecemos todas as etapas que ele seguiu para chegar àquele resultado. Neste âmbito também nos cabe a empatia. Vale lembrar que o mercado é feito de pessoas. Muitas pessoas. Então, vamos nos tratar com respeito e, na medida do possível, estender a mão a quem pede um help amigo. A vida é bondosa com quem compartilha!

Daianne Monteiro
Produtora de conteúdo, analista de mídias sociais, DJ e apaixonada por música.

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joaokomka

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